Saiu à procura de palavras que falassem sobre eles. As regras eram amplas: podiam ser de qualquer autor, escritas em qualquer língua, em qualquer lugar. Queria um texto que pudesse mandar como quem quisesse dizer: “é isso. É exatamente isso. É o que eu quero que você saiba, mas eu não quero dizer.” Nos momentos mais importantes, sempre lhe faltaram as palavras certas. Mas, aessa altura do campeonato, alguém certamente já as teria encontrado. Procurou nos livros, procurou nos filmes. Nas músicas lentas e agitadas. Percorreu muros, slogans, bulas, revirou páginas de citações encontradas no Google. Gastou os olhos em sebos, enciclopédias, quadrinhos favoritos. Os ouvidos sintonizavam conversas de ônibus, jogos de futebol e iPods alheios. Tentou de tudo, sem descanso. Quando sentia que estava perto, um detalhe escapava pelos dedos e colocava tudo a perder. Hora de recomeçar. De certa forma, encontrou o que queria, mas sempre em pedacinhos. Às vezes, pelo bem do texto, adaptava-se a ele e fazia caber no seu propósito. Mas sempre havia prejuízos: às vezes, perdia parte de sua personalidade; noutras, quem sofria cortes era o outro. A tradução do que queria dizer nunca era perfeita, integral. Depois de meses, começou a procurar suas palavras em fotos e imagens. A busca durou ainda mais tempo para acontecer, mas enfim terminou. Frustração abarrotada de cores, formas e tamanhos. Talvez, no fim das contas, não soubesse o que queria dizer ou o que tudo aquilo significava. Não ainda. A paixão por páginas em branco começou logo depois.
by clauagain
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